quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O Professor e os Saberes Docentes: Algumas Possibilidades de Análise das Pesquisas.

INTRODUÇÃO
As pesquisas sobre os saberes docentes têm se direcionado
para o resgate da importância do professor face à complexidade da
prática pedagógica enfocando assim aspectos pertinentes a serem
considerados na formação e profissão docente. Não nos arriscaríamos
a dizer que o estudo desta temática é muito recente, já que, de certa
forma, desde os anos oitenta, vinham sendo objeto de investigação
dos pesquisadores, temas relacionados à prática docente, ao processo
ensino-aprendizagem, à relação teoria-prática no cotidiano escolar,
crenças, concepções, competências, pensamento do professor etc.,
em que pese não haver uma referência explicita à expressão “saber
docente”.
A partir da análise de trabalhos brasileiros sobre a temática dos
saberes docentes é possível localizar uma diferença daquele momento
para os dias atuais que está no fato de se passar a reconhecer o
professor como profissional que adquire e constrói saberes baseandose
na prática e no confronto com as condições da profissão, imaginário
esse muito presente na literatura internacional (a partir de autores
como Tardif, Gauthier, Shulman, etc..) que nos chegou na década de
noventa. No contexto nacional esta temática vem no bojo da discussão
da identidade e do papel da educação, da universidade, da escola e
do professor.
Aprodução acadêmica baseando-se em diferentes concepções
e orientações, apresenta um grande número de pesquisas
desenvolvidas sobre o ensino, sobre os docentes e seus saberes
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em diversos lugares do mundo. Estas pesquisas apresentam uma
diversidade conceitual e metodológica e têm contribuído para um
acúmulo teórico de conhecimentos em dois sentidos: um primeiro na
produção de sínteses que apresentam as diferentes metodologias
de pesquisas e um segundo referente à elaboração de critérios,
agrupamentos, classificações e tipologias. Segundo Borges (2001,
p.60) essas diferentes tipologias e classificações
dão uma idéia da diversidade de enfoques e do ecletismo
presentes em algumas pesquisas. A diversidade e o
ecletismo nada mais são que o reflexo da expansão do
campo, no qual os pesquisadores buscam lançar luzes
sobre as diferentes facetas, aspectos, características,
dimensões, etc. que envolvem o ensino e os saberes
dos professores. As diferentes tipologias engrendradas
por alguns pesquisadores, além de contribuírem
para organizar o campo, corroboram para identificar
sua complexidade, e também, as lacunas ainda não
exploradas nos diferentes estudos.
Referência importante entre nós é o artigo de autoria de Tardif
(2002, p.36) que mostra que “a relação dos docentes com os saberes
não se reduz a uma função de transmissão dos conhecimentos já
constituídos. Sua prática integra diferentes saberes, com os quais
o corpo docente mantém diferentes relações”. Na análise realizada,
o autor procura apresentar um esboço da problemática do saber
docente e suas implicações para a prática pedagógica, apontando as
características dos diferentes tipos de saberes; a relação do professor
com os saberes e a valorização dos saberes da experiência nos
fundamentosdapráticaedacompetência profissional.Destacatambém
a pluralidade do saber docente que é “formado pelo amálgama, mais
ou menos coerente, de saberes oriundos da formação profissional e
de saberes disciplinares, curriculares e experienciais” (TARDIF, 2002,
p.36).
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Para Tardif (2002) os saberes da formação profissional
são aqueles relacionados às Ciências da Educação e à ideologia
pedagógica transmitida pelas instituições de formação de professores.
Articulados às Ciências da Educação, os saberes pedagógicos são
incorporados à formação profissional apresentando-se tanto como
um arcabouço ideológico à profissão como as formas e técnicas de
saber-fazer. Já os saberes das disciplinas surgem da tradição cultural
e dos grupos sociais produtores de saber dos diversos campos do
conhecimento e estão dispostos na sociedade de forma sistematizada
nas universidades. A seleção e organização dos saberes disciplinares
que os professores apresentam ao longo de suas carreiras são definidos
como curriculares. Estes saberes curriculares são organizados na
forma de programas escolares e que serão aprendidos e aplicados
pelos professores. Por fim os saberes da experiência são aqueles
que se constituem no exercício da prática cotidiana do professor.
São saberes “que brotam da experiência e são por ela validados.
Incorporam-se à vivência individual e coletiva sob a forma de habitus
e de habilidades, de saber fazer e de saber-ser” (TARDIF, 2002,p.39).
Esse mesmo autor afirma ainda que o saber docente é
estratégico e desvalorizado, em decorrência da relação que os
professores possuem com seus saberes. Essa desvalorização
vai ocorrer na medida em que o professor é visto como agente de
transmissão de conhecimentos, sendo incapaz de produzir saberes.
Tardif (2002) e Tardif , Lessard (1999), analisando a evolução
da definição dos saberes docentes, apresentam um modelo tipológico
para a sua identificação e classificação. Estemodelo procura analisar o
pluralismo do saber profissional, levando em conta os lugares em que
os professores atuam, as organizações que os formam e/ou nas quais
trabalham, os seus instrumentos e a experiência de trabalho.Apresenta
também as fontes de aquisição e os modos de integração do saber no
trabalho docente. Para Tardif (2002, p.61) os saberes profissionais dos
professores são tidos como plurais, compósitos e heterogêneos, pois
apresentam no exercício do trabalho “conhecimentos e manifestações
do saber-fazer e do saber-ser bastante diversificados e provenientes
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de fontes variadas, as quais podemos supor também que sejam de
natureza diferente”.
Tal tipologia vai ser elaborada em função da concepção que
os professores possuem sobre os seus saberes e que abrangem
uma grande diversidade de objetos, questões e problemas que estão
relacionados ao seu trabalho Assim no modelo tipológico proposto
são apresentados os seguintes saberes: os “pessoais” adquiridos
na vida e na educação no sentido amplo e integrados pela história
de vida e socialização primária; os “da formação escolar” oriundos
da escolarização e integrados pela formação e socialização préprofissional;
os da “formação para o magistério” provenientes dos
cursos de formação profissional e integrados pela formação e
socialização nas instituições formadoras; os dos “ programas e dos
livros didáticos”, utilizados pelos docentes como “ ferramentas” e
integrados ao trabalho docente e os da “experiência” adquiridos na
prática do ofício da escola, junto aos alunos, pares e integrados ao
trabalho através da socialização profissional. Este modelo é revelador
da diversidade de saberes, das várias fontes de aquisição e formas
de integração ao trabalho docente, estando o saber profissional na
confluência entre várias fontes de saber, oriundos da história de vida,
da sociedade, das instituições, etc.
Analisando as Pesquisas sobre a Formação de Professores nos
Programas de Pós-graduação em Educação, o estudo de Ramalho et.
al. (2002) nos mostra que há uma concentração de Linhas em quatro
temáticas: Profissão Docente, Profissionalização, Desenvolvimento
Profissional, Identidade, Prática Pedagógica e os saberes docentes.
Segundo os autores “esses quatro temas são reveladores de uma
tendência marcante na atualidade, que é a preocupação em defender
e colocar o Professor no centro do processo de construção da sua
profissão e do seu desenvolvimento profissional” (Ramalho et. al.,
2002, p.7). No caso da temática sobre os saberes docentes este ocupa
o menor percentual 7% em relação aos demais.
Já a análise histórica realizada por Brzezinski (2009), em
torno das pesquisas sobre formação de profissionais da educação
343
apresentadas no GTFormação de professores daAssociação Nacional
de Pesquisas e Pós Graduação em Educação (ANPED), mostrou que
a maioria das investigações giram em torno da
importância da pesquisa na formação do professor e
da formação inicial e continuada fortemente qualificada
para atuação em todos os níveis de ensino do Sistema
Nacional de Ensino; que o referencial teórico de boa parte
dos trabalhos está centrado na reflexão sobre a prática,
na produção de conhecimento acerca da docência e
da profissionalização do professor e nos saberes do
professor (Brzezinski, 2009, p.93).
Procurando contribuir com este campo, este trabalho tem como
objetivo apresentar algumas possibilidades de análise de pesquisas
sobre os saberes docentes procurando evidenciar as aproximações,
distanciamentos e contribuições apresentadas por tais estudos.
POSSIBILIDADES DE ANÁLISES DAS PESQUISAS SOBRE OS
SABERES DOCENTES
A maioria da produção acadêmica relacionada a temática
dos saberes docentes está vinculada diretamente a pesquisa sobre
a Formação e a profissão do Professor valorizando a construção
do conhecimento que perpassa o desenvolvimento das práticas
pedagógicas e do ofício docente.
Com o objetivo de obter um corpus para análise de pesquisas
sobreossaberesdocentesoptamosporfazerumlevantamentojuntoaos
trabalhos apresentados no GT Formação de Professores das reuniões
anuais da ANPED no período de 2000 à 2009. Neste levantamento
pudemos localizar 21 trabalhos mais diretamente relacionados ao
tema dos saberes docentes. A partir de então procuramos analisálos
de um modo geral abstraindo as considerações pertinentes não
utilizando necessariamente cada texto separadamente o que implicou
não indicá-los nas referências bibliográficas.
344
Após a análise foi possível identificar que os mesmos
se encontram vinculados a temáticas voltadas para: Formação
Continuada, Formação Inicial (Licenciatura), Professor Formador,
Professor em Exercício, Formação Inicial (Tecnológico), Formação
Inicial (Médio). O que percebemos é um percentual significativo de
trabalhos apresentados ao longo deste período sendo um número
maior em determinados anos como: 2001, 2002, 2003, 2005 e 2006;
reduzidos em 2000, 2004 e 2008 e ausentes em 2007 e 2009.Aescolha
por esta fonte para a análise das aproximações e distanciamentos das
pesquisas sobre os saberes docentes se deu pela relevância que os
trabalhos apresentados na ANPED ocupam no campo da pesquisa
educacional, representando concepções dos pesquisadores sobre a
temática em estudo.
A partir deste recorte temporal o que podemos verificar a
priori, é que embora o campo de pesquisa sobre os saberes docentes
venha se desenvolvendo nas investigações da área educacional, esta
temática ainda se apresenta como complexa já que envolve os vários
saberes do trabalho docente em sua especificidade que é diferenciada
de outras profissões.
Neste sentido as investigações neste campo continuam
sendo desenvolvidas buscando contribuir para a consolidação da
profissionalização do professor indo para além de uma profissão
baseada na vocação, no sacerdócio ou no dom. Ou seja, partem da
concepção de que a atividade docente deve ser considerada com
uma prática profissional fundamentada em saberes próprios onde os
docentes refletem em suas práticas o que a eleva como um lugar de
formação e de produção de saberes.
Na análise dos trabalhos selecionados procuramos identificar
a definição conceitual sobre os saberes docentes, o referencial
metodológico e as contribuições do trabalho buscando apreender
assim as contribuições destas pesquisas. Assim como o artigo de
Borges e Tardif (2001, p.12) o que encontramos foram diferentes
perspectivas
345
“que demonstram o crescimento substancial da
pesquisa sobre o conhecimento dos professores vem
acompanhado também de uma grande diversificação
qualitativa, tanto no que diz respeito aos enfoques e
metodologias utilizados, quanto em relação às disciplinas
e aos quadros teóricos de referência”
Uma aproximação que pode ser identificada nas pesquisas
sobre os saberes docentes que foram analisadas é que estas
reconhecem que a sua importância está na justificativa de que a
formação do professor não se esgota no curso inicial, já que é um
processo que deve ocorrer por toda a vida profissional permitindo a
inserção de novos saberes docentes.
Entre as convergências encontradas nas pesquisas sobre
os saberes docentes estas ressaltam a existência de um saber da
experiência que é construído no cotidiano da prática pedagógica.
Nesta direção vem à tona a discussão da prática reflexiva que é
exercida pelo professor constantemente em seu cotidiano profissional
sendo esta ação fundante para a construção do saber docente. Esta
prática vai contribuir na construção da identidade do professor como
profissional reflexivo, sendo uma dimensão inserida nos programas
de formação tanto inicial e continuada dos docentes. Esta tendência
de desenvolvimento da formação e da prática profissional reflexiva
e coletiva, tem uma ampla repercussão na literatura educacional
contemporânea (a partir de autores como Schön e Zeichner) refletindo
na construção da identidade profissional do professor envolvendo
seus saberes, suas experiências e seus fazeres.
Neste sentido os trabalhos analisados enfatizam o destaque
que deve ser dado à estes saberes experienciais que os professores
construirão e aperfeiçoarão ao longo da prática profissional. Assim as
pesquisas destacam e analisam a importância da formação continuada
do professor que, ao invés de esporádica como muitas vezes ocorre,
deve ser permanente e processual inserida no cotidiano da prática
docente enquanto lócus de construção de saberes.
346
Outro aspecto que merece destaque refere-se a convergência
dos autores que são referenciados nos trabalhos analisados.
A quase totalidade dos trabalhos recorrem à contribuição dos
autores estrangeiros tais como: Tardif e Gauthier. Outros autores
recorrentemente mencionados nas pesquisas sobre os saberes
docentes são Schon, Schulman, Nóvoa, etc.. O que mostra uma
influencia maior de autores norte- americanos e europeus e uma
tímida contribuição de autores latino americanos inclusive brasileiros.
Na análise dos trabalhos apresentados nas reuniões daANPED
no GT Formação de Professores durante o período estudado (2000-
2009), foi possível identificar que estes em sua maioria recorrem à
abordagem qualitativa no que se refere a metodologia da pesquisa
utilizando entrevistas, observação, grupo focal, narrativas, etc. como
instrumento de coleta de dados. Embora reconhecendo o potencial
que cada um destes recursos podem oferecer para o desenvolvimento
de pesquisas sobre esta temática, podemos inferir que um caminho
promissor para a investigação de algum dos saberes docentes, como o
caso dos experienciais, tais estudos poderiam recorrer as contribuições
de metodologias que se utilizem das narrativas tais como as histórias
de vida, biografias, memórias etc.
O trabalho desenvolvido por Vaz, Mendes eMaués (2001, p.03)
que utilizou as narrativas nos mostra que este instrumento “ surge
como uma entidade privilegiada para investigar a prática docente,
acredita-se que a narrativa é capaz de apreender a prática docente,
permitindo divulgá-la de modo que a característica central da prática
seja preservada e mantida”. Os autores enfatizam que a utilização de
narrativas de professores é uma estratégia promissora para a pesquisa
do saber docente que é eminentemente prático, pois
nos permite levantar o véu de um tipo de saber que está
mais próximo das realidades educativas e do cotidiano
do professor. Nas narrativas dos professores vemos que
teoria e prática se encontram em estreita articulação,
dessa forma, os saberes revelados, quando nos
utilizamos dessas narrativas, possuem uma dose maior
347
de credibilidade, pois estão mais integrados às práticas
dos professores Vaz, Mendes e Maués (2001, p.5-6)
Um outro aspecto que pôde ser analisado nos trabalhos é
que, embora ainda sejam em número pequeno, as pesquisas que
tem como objeto o desenvolvimento profissional e os saberes dos
professores formadores merecem ser desenvolvidas considerando os
diferentes significados da prática docente em função dos contextos e
da cultura em que estão inseridos. Ou seja a singularidade dos locais
de trabalho dos professores deve ser considerada na análise das
práticas educativas e dos saberes do ofício dos docentes. Segundo
Gariglio (2005, p.2) “os saberes docentes são laborados dentro de
um contexto situado de trabalho, ou seja, construídos em função de
situações particulares e singulares”.
Dessa forma, para pensar a formação do professor, deve-se
levar em conta este contexto no qual se constróem e se aplicam os
saberes docentes, pois estes dependem diretamente das condições
históricas e sociais nas quais se exerce a profissão e servem de base
para prática docente. Neste enfoque o professor então é reconhecido
como possuidor de saberes próprios, em virtude da sua experiência de
vida influenciada por questões culturais e pessoais.
As pesquisas nos alertam para uma tensão existente entre a
valorização dos saberes acadêmicos tão fortemente trabalhados nos
cursos de formação de professores e os saberes da experiência que
vai ser construído ao longo da carreira profissional. Cabe ressaltar
a importância de que o saberes práticos (estimulado pela reflexãona-
ação) não seja considerado como oposto ao saberes acadêmicos.
Ao contrário, eles não se excluem, pois o saber prático abrange
tanto o saber acadêmico quanto aquele que provém da experiência,
constituindo-se em saberes do professor que vão sendo reconstruídos
na vivência.
Oque percebemos é que somente a partir da década de noventa
que se buscam novos enfoques e paradigmas para compreender a
prática pedagógica e os saberes pedagógicos e epistemológicos
relativos ao conteúdo escolar a ser ensinado/ aprendido, pois até
348
então, a ênfase estava posta na valorização quase exclusiva dos
saberes específicos que o professor detinha sobre a sua disciplina,
nos aspectos didáticos–metodológicos relacionados às tecnologias de
ensino e ao domínio dos conteúdos.
De fato, se olharmos para a formação de professores, enquanto
campo de estudo, podemos perceber a forte presença de um modelo
teórico a orientar a formação do professor fundamentada em um
modelo aplicacionista do conhecimento. Nestes cursos o professor
primeiramente terá acesso ao conhecimento científico e somente
ao final do curso deverá ir para a “prática” para aplicar os saberes
adquiridos.
Este modelo de formação acaba por intervir na prática
pedagógica do professor após a sua formação inicial onde ele
apresenta uma certa dificuldade em transpor o saber aprendido na
universidade para o saber que deve ser ensinado na escola. Isto
foi percebido em algumas das pesquisas que após a analise dos
relatos dos professores identificaram que a maior parte dos saberes
foram adquiridos a partir da prática profissional, ou seja depois de
formados. Estes estudos ressaltam o desafio que é trabalhar junto
aos professores considerando tantos saberes experiências quanto
os saberes acadêmicos. Para Tardif (2002, p.271-272) esta tensão
ocorre pois a
[...] a lógica disciplinar é regida por questões de
conhecimento e não por questões de ação. Numa
disciplina, aprender é conhecer. Mas, numa prática,
aprender é fazer e conhecer fazendo. No modelo
aplicacionista, o conhecer e o fazer são dissociados e
tratados separadamente em unidades de formação
distantes e separadas. Além disso, o fazer está
subordinado temporal e logicamente ao conhecer,
pois ensina-se aos alunos dos cursos de formação de
professores que, para fazerem bem feito, eles devem
conhecer bem e em seguida aplicar seu conhecimento
ao fazer (TARDIF, 2002, p.271-272).
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O que identificamos nas pesquisas analisadas é a tendência
de se considerar e valorizar os saberes da prática, pois além de ser
fundamental para a solidificação dos conhecimentos teóricos, contribui
para o reconhecimento de que os saberes docentes em ação são
impregnados por elementos sociais, ético-políticos, culturais, afetivos
e emocionais que fazem parte da complexidade da prática pedagógica
ao longo da carreira profissional.
Neste sentido a questão do tempo, para além daquele restrito
na sala de aula, aparece como dimensão também importante para
os estudos dos saberes dos professores. Segundo Calixto (2003, p.7)
o saber dos professores possui como fundamentos
condicionantes o tempo e o próprio trabalho. O tempo
que se alonga desde a experiência pessoal e escolar
anterior à formação inicial (familiares ligados ao ensino,
relação afetiva com crianças, experiências docentes bem
sucedidas, relações afetivas com certos professores,
como alguns exemplos) até o percurso da carreira
entendida como o resultado do diálogo entre o trabalho e o
trabalhador, num processo de interação e transformação
mútuas (reconhecimento de seu papel, de seus limites,
aumento da confiança, domínio dos diversos aspectos
do trabalho como liderança, gerenciamento) (Calixto,
2003,p.7)
As análises aqui esboçadas, a partir das pesquisas sobre
os saberes docentes que constituíram o universo deste trabalho e
considerando as condições singulares de desenvolvimento de cada
uma, nos permite perceber que tais estudos sobre a temática devem
continuar indo além do que está claro e posto. Devem investigar aquilo
que está implícito, ou seja analisando a produção destes saberes que
são construídos partir de ações individuais e/ou coletiva, que trazem a
“voz” dos professores .
350
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste artigo em que procuramos identificar possibilidades de
análise das pesquisas sobre os saberes docente foi possível perceber
uma ampliação da temática, permitindo trazer luzes para se pensar a
formação e a profissão docente.
Ficou evidenciado a relevância das reuniões da ANPED
enquanto um lócus da produção acadêmica que fomenta as pesquisas
direcionadas para a diversidade de temas voltados para a formação,
profissão e prática docente e que precisam ser socializadas para além
do meio universitário.
Segundo Gariglio ( 2005,p.13)
Quando se apregoa que os professores são sujeitos do
conhecimento, e que os saberes por eles transmitidos
deveriam transitar pelo meio acadêmico com a
importância que eles merecem, está se tentando dizer
que a produção dos saberes sobre o ensino não pode
ser mais privilégio exclusivo dos pesquisadores, os
quais devem reconhecer que os professores também
possuem saberes, saberes esses que são diferentes dos
conhecimentos universitários, e que obedecem a outros
condicionantes práticos e a outras lógicas de ação.
A análise dos trabalhos traz à tona a discussão sobre o
lugar ocupado pelo professor neste processo de formação, ou seja
as pesquisas voltadas mais diretamente para a construção do saber
docente nos mostram que embora existam diferentes aspectos e
formas de abordar o tema, não havendo uma discussão unívoca sobre
os saberes, a questão central está na importância de se considerar o
professor como construtor do seu saber
É enfatizado que este processo de construção do saber vai
ser influenciado por fatores que vão além da formação inicial ou
continuada do professor, sendo resultantes também dos processos
351
pessoais e profissionais vivenciados pelo professor.
Dentre a produção analisada merece ressaltar a incipiência de
pesquisas sobre os saberes docentes que enfocam o professor de
outros níveis e oumodalidades de ensino, como por exemplo do ensino
superior. Os professores que atuam neste nível de ensino geralmente
não recebem uma formação específica para esta função profissional,
ou seja, se faz necessário o desenvolvimento de pesquisas que
enfoquem os saberes pedagógicos importantes para a atuação
do professor universitário, saberes esses fundantes da atividade
docente. O mesmo poderíamos registrar sobre a necessidade de
desenvolvimento de pesquisas, nesta temática dos saberes docentes,
considerando as outras especificidades de atuação como o professor
da Educação no campo, da Educação de jovens e adultos, Educação
indígena etc. .
Acreditamos que uma possibilidade para o desenvolvimento
de pesquisas futuras, que contribuiriam para o aprofundamento do
tema sobre os saberes docentes, pode estar na análise a ser feita
pelo próprio professor sobre a sua atuação pedagógica, recorrendose
à sua história de vida, as narrativas e aos seus diários de aula.
Isto possibilitaria o mapeamento de suas crenças, valores, práticas e
aprendizagens, dimensões também constituidoras desse saber.
Não temos mais como negar que, mesmo que a produção
acadêmica em torno dos saberes docentes seja uma constante, nos
últimos anos há uma carência de novas referencias que possam de
fato contribuir na discussão política e no discurso e na prática da
formação de professores. Ou seja buscar a resposta para a seguinte
questão: Que tipo de contribuições nossas pesquisas tem fornecido
aos programas de formação de professores e ao campo científico
sobre a formação e profissão docente?
Por fim este artigo procurou trazer elementos para analisar as
possibilidades e limites que tem se apresentado nas pesquisas sobres
os saberes docentes numa tentativa de contribuir para o repensar o
papel do professor no que se refere a sua formação, a sua prática
educativa e a sua profissão. Acredita-se assim que identificando
352
quando, onde e como são produzidos os saberes dos professores é
possível levantar aspectos teóricos-metodológicos para subsidiar as
pesquisas sobre o professor e assim construir novas concepções e
práticas para este campo de estudo.
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